Freud Explica: Seu Ciúme — Giorgia Matos, Psicanalista
Freud, o pai da psicanálise, e o tratamento para o ciúme no divã

Freud Explica: Seu Ciúme

Saiba como a psicanálise explica o que acontece no seu inconsciente no momento em que você está com ciúme.

Você já ouviu falar em Sigmund Freud?

Claro! Que pergunta!

Freud (1856-1939) é conhecido como o “pai da psicanálise”.

E não é por menos. O legado que ele nos deixou sobre o estudo do inconsciente é inimaginável.

Todo o estudo de sua obra composta por 23 volumes e outros textos é de uma riqueza que só uma pessoa com sua inteligência e sagacidade seria capaz de produzir.

Freud fala, em seu texto Sobre Alguns Mecanismos Neuróticos no Ciúme, na Paranóia e na Homessexualidade (1922) os tipos de ciúme que nós possuímos:

Ciúme Normal, Ciúme Projetado e Ciúme Delirante.

O que é mais interessante são os mecanismos de defesa que nosso inconsciente utiliza para nos proteger da angústia trazida pelo ciúme.

Talvez você não faça idéia de que esses Mecanismos de Defesa do Ego estão lá, quietinhos, esperando o momento certo de serem acionados e te poupar da angústia e frustração que você passa em muitos momentos de sua vida.

E é isso que provavelmente você queira entender: “o que se passa em minha mente quando eu sinto aquele ciúme exagerado?”

Conceito de Ciúme em Freud

Sigmund Freud, o pai da Psicanálise

Para matar sua curiosidade, veja aqui o conceito resumido do ciúme no texto de Freud. Ciúme normal, ciúme projetado e ciúme delirante:

Ciúme normal

“Se constitui essencialmente do luto, da dor pelo objeto amoroso que se acredita haver perdido e da injúria narcísica; também de sentimentos hostis pelo rival favorecido”. (Freud-1922)

Exemplo de ciúme normal seria o da mulher que sente dor por ter perdido seu amado.

Ciúme projetado

Infidelidade no Relacionamento - ciúme projetado de freud

“Este deriva da própria infidelidade realmente praticada ou de impulsos a infidelidade que cederam à repressão. A experiência cotidiana mostra que a fidelidade, sobretudo aquela exigida no casamento, é mantida em face de contínuas tentações. Quem as nega em si próprio, contudo, sente sua pressão de forma tão intensa que faz uso de um mecanismo inconsciente para se aliviar. Obtém esse alívio, essa absolvição perante sua consciência, quando projeta seus próprios impulsos à infidelidade no parceiro ao qual deve fidelidade”. (Freud-1922)

Exemplo do ciúme projetado seria o homem com uma vontade enorme de trair e jogando (projetando) essa vontade na esposa, dizendo que ela está com vontade de sair com outros homens.

E assim, ele se sente menos culpado de estar tendo esse tipo de pensamento. No momento em que ele joga para ela, ele fica isento do sentimento de culpa.

Ciúme delirante

“Também provém de reprimidas inclinações à infidelidade, mas os objetos dessas fantasias são do mesmo sexo do indivíduo.” (Freud-1922)

Ou seja, essas fantasias são homossexuais.

Exemplo de ciúme delirante é do homem que acusa a esposa de estar interessada no vizinho quando na verdade é ele mesmo que está.

Saiba Como Freud Interpreta o Ciúme

O ciúme na visão da psicanálise

Que bom que o inconsciente tem como abrandar a dor sentida pelos ciumentos quando aquele turbilhão de sentimentos vêm à tona, não é?

E você nem se dá conta disso.

São reações automáticas do organismo que fazem o ciumento ficar menos angustiado diante de um acontecimento que geralmente causaria um desconforto maior.

São os Mecanismos de Defesa do Ego.

Quando temos conteúdos mentais que geram muita angústia, o Ego cria mecanismos de defesa para nos proteger da dor que foi gerada. Esses conteúdos são excluídos da consciência, reprimidos, e perdem, momentaneamente, a energia.

Em outras palavras: nosso inconsciente, depois de uma cena desagradável, ou um acontecimento doloroso, trata de “esquecer” aquilo que foi presenciado, sentido, para não causar sentimentos de ansiedade em você.

O problema desse “esquecimento” é que ele só foi jogado de lado, mas ele ainda está lá, e, por vezes, pode retornar, como um sintoma, uma doença.

Isso se dá porque aquele sentimento ligado ao fato (que chamamos na psicanálise de Afeto) está lá, ele é pura energia e tem que ser canalizado um dia, de alguma forma.

Você quer conhecer, na prática, como funciona o mecanismo de defesa? Pois bem, passemos aos fatos (fictícios, claro). Serão três exemplos que em cada um será explorado um mecanismo diferente.

Juliana e Ismael, o encucado!

Ciúme infundado como mecanismo de defesa do ego

Essa é a história de Ismael, o encucado:

Sabe aquele dia em que o Ismael cismou que a Juliana estava paquerando com o Joel?

Pior que no dia seguinte um primo de Joel chegou à cidade e Ismael agora encucou que a Juliana estava se encontrando escondida com ele.

Que doideira, não é?
Esse ciúme é infundado ou a Juliana é assim, bem… danadinha?

Vamos supor que o ciúme de Ismael seja infundado e que cada dia ele sente ciúme de um rapaz diferente.

Você imagina o que seja isso?

Mecanismo de Defesa da Projeção

Ciúme Projetado. Isso mesmo. Ismael projeta na Juliana a vontade dele mesmo estar cometendo traição.

Como ele tem um Superego (opa! Superego são nossos preceitos morais e éticos que foram construídos ao longo de nossa vida) rígido, ele não se permite ter esse tipo de pensamentos e sentimentos inaceitáveis e indesejados, então projeta na namorada a vontade de trair, como forma de abrandar o Superego e não sentir tanta culpa.

Ou seja, é uma vontade recalcada de trair. E, projetando essa vontade na namorada, ele se sente aliviado, isento de culpa e absolvido perante sua consciência.

“Eita, Ismael! Depois dessa, tu não me engana mais não, visse?”

Tal Pai, tal Filho! (ou melhor: pai infiel, filha ciumenta)

Filha consolando mãe que sofre com a infidelidade do marido é uma forte candidata a se tornar uma adulta enciumada

Essa é a história de Paola, uma menina que desde pequena via o pai traindo sua mãe.

Ver, exatamente, ela não via. Ela ficava sabendo.

Não tinha como ela, com tão tenra idade, ver nada.

Mas, apesar de pequena, não era tola. Via comportamentos estranhos relacionados ao pai e uma desconfiança (fundada) da mãe.

Às vezes presenciava brigas e mais brigas.

Discussões intermináveis, e sempre pelo mesmo motivo: ciúme e suposta traição.

Suposta para a mãe, porque Paola tinha quase absoluta certeza.

Existe esse termo? “Quase absoluta certeza”?

Enfim, os indícios eram vários.

Um exemplo: o pai de Paola era funcionário público e seu expediente terminava às 18h, horário em que a mãe de Paola estava saindo para a faculdade.

E daí?

Daí que o pai de Paola só chegava em casa 10:45, ou seja, 15 minutos antes da aula de sua mãe terminar e ela chegar em casa.

Outra situação: Paola via seu pai em ligações intermináveis, sempre com sorrisinho tímido.

  • Quem era, papai?
  • Era o meu proctologista!

Ou o pai dela tinha um problema sério nas partes íntimas ou não era o proctologista, não.

Pois bem, Paola internalizou toda essa situação de pai traidor, adúltero e mentiroso.

E o resultado?

Levou para sua vida adulta que nenhum homem “presta” e que seria traída por todos eles.

Mecanismo de Defesa da Generalização

“Se meu pai fez isso com minha mãe, todo homem vai fazer isso com sua esposa”.

Está instalado aí o Ciúme.

Pode até acontecer de Paola nem saber o motivo de seu ciúme.

Pode ela nem lembrar que seu pai traía sua mãe. Ou ela pode, ainda, não ligar uma coisa a outra.

O fato é que, se Paola não descobrir o motivo de seu ciúme e não ressignificar esse sentimento, ela sentirá ciúme de cada parceiro que tiver, sempre se utilizando da generalização.

Eu, ciumenta? Jamais.

Mulher não se considera ciumenta - mecanismo de defesa do ego psicanálise

Essa é a história de Alex e Jeanne, um casal acima de qualquer suspeita.

Jeanne, moça inteligente, bonita, simpática, fiel e com todos os atributos que uma mulher desejaria ter.

Alex, rapaz inteligente, bonito, simpático, prestativo, trabalhador, e… digamos… não tão fiel assim.

O que aconteceu foi que depois de 5 anos de namoro, já nos preparativos para o noivado, Jeanne descobriu que Alex há 2 anos encontrava-se às escondidas com uma moça que o chamava de “meu namorado”.

Jeanne, além de todas aquelas qualidades, era bem resolvida emocionalmente.

Não quis saber nem o motivo de ele ter feito aquilo com ela. Rompeu o namoro e imediatamente retomou sua vida de solteira, não demonstrando nenhuma dor ou trauma com o fim do relacionamento, sempre deixando transparecer que estava tudo bem.

O que aconteceu?

Mecanismo de Defesa do Isolamento

Jeanne é fria? Ou será que não gostava de Alex tanto assim?
O que aconteceu foi que o inconsciente de Jeanne se utilizou de um Mecanismo de Defesa chamado Isolamento.

Ela falou no momento que não sentiu ciúme, mas há um equívoco nisso.

Ela sentiu ciúme sim, mas o ciúme foi isolado para não causar tanta dor.

Aí você me pergunta: Como assim isolado?

O inconsciente dela separou o fato ocorrido (a traição) do sentimento ligado ao fato (o ciúme, a dor, a rejeição).

Então essa situação aparentemente não lhe causou maiores problemas naquele exato momento.

Acontece que o sentimento está lá (na psicanálise, o afeto), escondido, cheio de energia e pronto para ser canalizado em algum momento.

Como, por exemplo, ela pode futuramente desenvolver um medo incomum, ou um pânico, uma fobia a insetos;

Talvez fobia a cachorros. (sem trocadilhos);

Pode apresentar medo de água, coisa que não tinha antes;

Ou seja, ela pode canalizar aquele ciúme, aquela decepção, para algum comportamento em algum momento de sua vida.

Esse comportamento é individual, subjetivo e cada um vai apresentar de uma maneira diferente.

Mas o certo é que vai apresentar, pois a energia está lá, foi isolada, e vai ser canalizada futuramente.

O ciúme irá se manifestar. De uma forma ou de outra.

Compulsão à Repetição em Freud

Menina que não recebe atenção do pai. É provável que, na fase adulta, prefira homens que não dêem muita importância a ela

Freud explica o seu ciúme, Freud conceitua ciúme normal, projetado e delirante, Freud explica como os mecanismos de defesa agem em seu inconsciente para abrandar sua dor, e Freud não para por aí.

Não mesmo.

Na teoria psicanalítica encontramos um conceito que chamamos de Compulsão à Repetição.

E ele é bem interessante.

Você sabe aquela sua amiga que vive reclamando que tem “dedo podre”?

Pois é, essa expressão é comum, mas algumas pessoas não sabem de onde ela vem.

Ela vem da necessidade de se repetir o que já foi vivenciado antes, mesmo que sejam situações penosas.

A tendência que temos é a de repetir padrões da infância, porque é o que conhecemos, o que somos familiarizados e o que nos traz segurança.

Mesmo que você repita uma experiência ruim do passado, é a que você está acostumada e a que vai trazer para o comportamento atual.

Se sua amiga tem dedo podre e se atrai por parceiros não tão bons assim, ela deve procurar em seu passado o que está sendo repetido.

Talvez ela tenha crescido em um ambiente hostil (pai grosseiro, traidor, ciumento, mãe submissa), lar disfuncional (álcool, drogas, maus tratos), falta de amor, carinho e atenção.

Ou seja, é o tipo de relação afetiva que ela está acostumada e ela vai repetir o contexto familiar, para permanecer “em casa”.

O certo é que o que ela vivenciou, vai repetir. E o pior, achando que é normal.

Enquanto ela não identificar esse padrão, nada poderá ser feito. E isso é bem difícil porque a maioria das pessoas não sabe o motivo de estar agindo assim. Ou melhor, nem sabe que dedo podre tem um motivo.

Então, quando sua amiga estiver dando aquelas cenas de ciúme, peça pra ela fazer uma breve retrospectiva do padrão de relacionamentos que ela está escolhendo para si.

Talvez ela esteja tendo dor de cabeça com parceiros inadequados. Se for o caso, ela tem que investigar porque está agindo dessa forma (dedo podre) e procurar se policiar para os próximos relacionamentos.

Se ela achar bem difícil essa tarefa, o mais indicado é procurar um psicanalista. Ele saberá conduzir e achar o caminho.

Ciúme e a contribuição da psicanálise

Rapaz em tratamento do ciúme com seu psicanalista no divã

O ciúme é um sentimento normal do ser humano se ele for brando, temporário e não cause transtornos à sua rotina.

Quando ele passa do limite do aceitável, aí já se torna um problema. E a causa desse ciúme excessivo tem que ser investigada e trabalhada, para se chegar a um relacionamento mais tranquilo, feliz e saudável emocionalmente.

A psicanálise é muito importante na hora dessa investigação.

Você talvez não saiba que seu ciúme veio de algum lugar, que ele não surgiu do nada. Isso mesmo. Se não é o caso de um parceiro inadequado, então o ciúme está em você: por baixa auto estima, por falta de confiança em si mesma, por medo, por culpa… por uma infinidade de “causas”.

E essas causas na verdade são sintomas. Sintomas de algo que os desencadeou.

Pode ser que você esteja sofrendo por ciúme exagerado e não tenha nem força para sair de sua zona de conforto.

Mas não perca as esperanças.

Freud te deu o conceito, as causas, as consequências e os mecanismos de defesa. O que falta é você tomar as rédeas da situação e passar para a próxima etapa.

No livro Ciúme Patológico, Passando dos Limites, além das causas mencionadas aqui, ainda são apresentadas outras, como por exemplo a Síndrome do Abandono e Complexo de Édipo, tudo de forma clara, fácil e didática.

Se você já cansou de buscar uma solução por si só, procure ajuda de um profissional. O que não vale é continuar sentindo um ciúme depois que você já sabe que as coisas não precisam ser bem assim e que você pode construir, de agora em diante, um caminho mais saudável emocionalmente.

Mãos à obra.

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